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Doutor Gama

Doutor Gama: o advogado dos escravos

Drama – cinebiografia (2021)

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Vendido pelo pai como se a vida fosse moeda, Luiz Gama fez da letra, uma arma. Ele não esperou que a justiça tivesse pressa; venceu o sistema com o saber que a opressão tentou lhe negar, devolvendo o horizonte a centenas de almas. No filme que agora lhe dá corpo, sua voz volta a transbordar como um rio que não aceita represas. É a prova de que a liberdade, antes de ser lei, é uma teimosia visceral que o tempo não consegue apagar.

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O Direito ao Próprio Destino

Há uma demora no tempo de se fazer justiça, um vácuo onde a história oficial decidiu, por séculos, não habitar. Recentemente, a imagem — essa luz que tenta remediar a cegueira — tem buscado trazer à superfície o que foi negligenciado. Olhamos para essas figuras negras poderosas no centro das telas e algo em nós estranha; fomos tão feridos pelo esquecimento que a dignidade nos parece ficção. Mas o fato é que a vida insiste, e Luiz Gama é a prova de que o impossível é apenas uma questão de perspectiva.

A história de Gama não começa com tinta, mas com sangue e traição. Imagine a dor que cabe em uma criança de dez anos, vendida pelo próprio pai para pagar uma dívida de jogo. É um tipo de abandono que rasga o céu e o chão, um mar que ninguém conseguiria represar.

Aprendeu as letras aos dezessete anos, não como quem aprende um ofício, mas como quem afia uma lâmina. Usou a lei para se ler livre. E depois de se libertar, ele se tornou a própria justiça caminhando pelas ruas de uma São Paulo que fingia não vê-lo.

Luiz Gama: uma advogado sem diploma

Gama era o advogado sem diploma, o procurador das almas que o sistema insistia em chamar de mercadoria. Ele não precisava de anéis de rubi; sua autoridade vinha de um saber que o racismo não conseguia alcançar. Libertou quinhentos. Não foram apenas quinhentos nomes; foram quinhentos abismos que ele preencheu com a possibilidade do amanhã. Usou a ironia de Getulino para despir a elite de suas hipocrisias, rindo da nobreza que se alimentava do crime da escravidão.

Ele partiu antes do fim daquela noite longa chamada escravatura, mas seu velório foi o transbordamento de um rio. Milhares carregaram o corpo daquele que, por tanto tempo, carregou o peso de uma nação inteira nas costas. A OAB levou mais de um século para assinar o que a vida já havia carimbado com fogo: ele era, e sempre foi, um dos melhores advogados de todos nós.

Celebrar Luiz Gama não é apenas olhar para o passado. É entender que a dor, quando transbordada com inteligência, vira combustível. É saber que a liberdade não é um favor do Estado, é uma conquista da alma que decidiu nunca mais se curvar.

O Espelho de Prata: Doutor Gama nas Telas

O cinema, quando acerta o tom, funciona como um acerto de contas com o invisível. No filme Doutor Gama, a vida desse homem deixa de ser um verbete de dicionário para se tornar carne, suor e lágrima diante dos nossos olhos. Ver César Mello dar corpo e voz a Luiz é entender que a justiça, antes de ser escrita nos códigos, precisa ser sentida no peito.

      O filme não nos poupa do desconforto; ele nos mergulha na claustrofobia de um Brasil que negociava seres humanos como se fossem fardos de algodão. Mas, em meio ao sufocamento, a película captura o brilho nos olhos de quem descobriu que a palavra é a única chave que nenhum carcereiro consegue quebrar. É um filme sobre a oratória que desarma o ódio e sobre o silêncio de uma mãe, Luísa Mahin, que ecoa em cada vitória do filho.

      Assistir à trajetória de Luiz Gama projetada na luz é compreender que o passado nunca está morto; ele está apenas esperando que tenhamos a coragem de olhá-lo de frente. O longa-metragem não é apenas uma biografia, é um espelho de prata onde o Brasil se vê, com todas as suas cicatrizes e toda a sua potência negligenciada.

      No fim, a luz que sai do projetor e ilumina a sala escura é a mesma luz que Gama acendeu no século XIX. Uma luz que nos avisa: a liberdade é um rio que, uma vez que encontra o seu curso, ninguém mais consegue parar.

      Leia mais sobre a vida e a obra de Luiz Gama.

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